terça-feira, 18 de julho de 2023

 

A assim chamada ‘acumulação primitiva’

 

O que foi a acumulação primitiva?

Com que metodologia foi conseguida?

Que objetivos visava?

De que consequências se revestiu?

 

O processo de acumulação primitiva, indispensável à implantação do modo de produção capitalista, ocorreu na Inglaterra da época moderna e foi um processo de expropriação; para conhecermos o tipo de bens que dele foram objeto basta ler Marx que faz um relato acurado: 

“O roubo dos bens da Igreja, a fraudulenta alienação dos domínios do Estado, o furto da propriedade comunal, a transformação usurpadora e executada com terrorismo inescrupuloso da propriedade feudal e clânica em propriedade privada moderna, foram outros tantos métodos idílicos da acumulação primitiva. Eles conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a base fundiária ao capital e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado livre como os pássaros.”[1]

No contexto do capitalismo, de acordo com a terminologia sugestiva de Marx, o roubo, a alienação fraudulenta, o furto, a transformação usurpadora e o terrorismo inescrupuloso foram os procedimentos utilizados, eventualmente revestidos de aparências menos brutais, dependendo dos casos e das circunstâncias específicas, mas de qualquer modo muito distantes de quaisquer nobres pergaminhos que se pretenda reivindicar.

Para além da identificação a que procede, Marx lembra ainda que essas expropriações de terras tiveram como consequência o “despejo” daqueles que durante gerações nelas tinham vivido, que uma vez despejados se viram obrigados a emigrar para os centros urbanos constituindo desse modo uma mão de obra abundante e enquanto tal barata - o tal proletariado – que não tinha onde dormir nem o que comer, mas que era finalmente ‘livre como os pássaros …’

Numa palavra, a acumulação primitiva foi uma autêntica privataria[2]. De entre os objetos dessa privataria cabe uma referência específica à propriedade comunal, alvo de legislação aprovada no parlamento britânico, que Marx refere ironicamente como um progresso, já que tornava legal o roubo e a fraude, isto é, legitimava esses atos:

“O progresso do século XVIII consiste em a própria lei se tornar agora veículo do roubo das terras do povo, embora os grandes arrendatários empreguem paralelamente também seus pequenos e independentes métodos privados. A forma parlamentar do roubo é a das Bills for Inclosures of Commons (Leis para o cercamento da terra comunal), em outras palavras, decretos pelos quais os senhores fundiários fazem presente a si mesmos da terra do povo, como propriedade privada...” [3]

Claro que o Parlamento que votou as leis dos cercamentos só tinha como membros proprietários e estes só eram eleitos por proprietários dado que o direito de voto era basicamente censitário, daí que por intermedio dessas leis “os senhores fundiários fazem presente a si mesmos da terra do povo” ; aqui mais uma vez podemos ver como a democracia liberal, malgrado as suas promessas, funcionava para proteger interesses que nada tinham de democráticos.

De qualquer modo, o homem comum não cogitaria sequer reclamar até porque afinal o parlamento tinha representantes eleitos; ora os camponeses não eram proprietários o que tinham era nas suas aldeias e vilas, os seus cottages, vulgo cabanas, alguma escassa terra a que naturalmente recorriam para cultivo  de bens de subsistência, e, sobretudo, o acesso a terras comunais que podiam utilizar para pastagens, lenha para aquecimento e madeira para construção, e ainda caçarem pequenos animais para a sua alimentação.

Com as leis dos cercamentos essas terras ou melhor o acesso foi-lhes vedado e uma vez cercadas transitaram para os seus novos proprietários a quem eram entregues, ou como coutadas de caça ou com outros propósitos. Estima-se que com este processo dos cercamentos um quinto das terras da Grã-Bretanha passou para as mãos de privados com a exceção do que era reservado para a construção de ferrovias ou de outras infraestruturas.

Neste contexto, os camponeses, gozando da liberdade que a ideologia liberal generosamente lhes reconhecia em teoria - sem atender a que só há liberdade quando se superou a necessidade – viram-se compelidos/coagidos  pela dita necessidade a emigrar para as cidades em busca de um trabalho que lhes permitisse subsistir, trabalho esse que tinham mesmo de aceitar, fosse qual fosse o valor oferecido pelo patrão, pois de outra maneira, sem ocupação, seriam considerados vadios e lugar bom para vadio é como já sabemos na prisão, na época o ferrete  com ferro em brasa e em caso de reincidência a morte. A legislação sobre pobres e vadios e a sua criminalização foi célere em aparecer.

Muito sucintamente pode dizer-se que assim se construiu a base do modo de produção capitalista!



[1] Karl Marx, O Capital V. I p. 355

[2] O termo ‘privataria’ é um neologismo que resulta da fusão de privado com pirata.

[3] Karl Marx, idem, p. 348/49

domingo, 16 de julho de 2023

 

Capitalismo – expropriação e exploração constituíram o método

Grosso modo, pode dizer-se, seguindo Marx[1], que o ponto de partida do modo de produção capitalista foi aquilo que ele designou de “acumulação primitiva”.

A acumulação primitiva - no sentido de básica, de originária - permitiu que a burguesia, emergente a partir da época moderna, acumulasse riqueza, particularmente propriedade fundiária, para de seguida a transformar em capital, recorrendo à exploração do trabalho e dos trabalhadores.

Neste processo, há dois momentos intimamente imbricados a considerar: por um lado a apropriação pela que virá a ser a elite capitalista de bens indispensáveis à produção – os meios de produção – e por outro a privação da vasta massa da população desses mesmos meios de produção que garantiam a sua subsistência – terra e recursos nela contidos.

Desse modo os produtores diretos (trabalhadores) ficaram na dependência daqueles que passaram a deter a posse e propriedade dos meios de produção (patrões/capitalistas); obviamente que essa dependência vai criar condições para que aqueles que apenas possuem capacidade de trabalho sejam explorados em benefício daqueles que detém os meios de produção. 

Resumindo o capitalismo pressupôs expropriação e exploração, sendo que a primeira criou condições para que a segunda ocorresse. Este processo foi particularmente violento na Inglaterra dos fins da época moderna (séculos XVII e XVIII). Marx debruçou-se sobre ele e nós iremos revisitar esse cenário para procurar perceber como as coisas se passaram. 


P.S. Hoje em vez de 'expropriação' falaríamos em 'privatizações'

[1] Capítulo XXIV do Volume I de O Capital

 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

 

Democracia e capitalismo - Contradição ou colaboração?!

A uma análise minimamente atenta, constata-se que as duas esferas da vida social, a política, - orientada para a organização e funcionamento das estruturas e instituições sociais, e a económica, orientada para a organização da esfera da produção e do consumo dos bens necessários à manutenção da vida se vão estruturar de forma não só diferente, como contraditória.

Na esfera política vai procurar instaurar-se, pelo menos formalmente, uma democracia, garantida por governos representativos e pela defesa formal da participação de todos os cidadãos, através do voto e dos partidos políticos. Na esfera económica, as decisões sobre como alocar recursos, organizar o trabalho e dispor dos lucros cabe apenas aos donos das empresas, aos empregadores, não aos empregados, que não têm ‘voto na matéria’. Numa palavra, a democracia política defende a igualdade política, o capitalismo supõe a desigualdade social e económica, desde logo a desigualdade entre quem manda e quem obedece, distinção esta baseada em quem detém os meios de produção e quem apenas dispõe da sua capacidade de trabalho.

O problema que tem de se colocar é o de saber se é possível harmonizar as duas esferas, e, nesse caso, como, ou se o conflito é inevitável e só pode ser resolvido pela anulação de um dos polos da contradição: a democracia ou o capitalismo.

A tese que aqui defendo é que não é possível harmonizar as duas esferas dado o conflito entre democracia e capitalismo ser de facto insanável; mas também defendo que tem sido possível até ao momento conseguir que ele não se revele um conflito dinâmico, fazendo-se passar a mensagem, a meu ver profundamente mistificadora, de que a esfera política goza de suficiente independência.

Esta tese da independência da esfera política vai completamente ao arrepio da conceção materialista histórica que defende com boas razões que a esfera da produção funciona como a infraestrutura material que condiciona, e até certo ponto determina, a esfera política - superestrutura. A revisitação do processo histórico permite constatar que esta esfera da vida social desde o início, séculos XVII e XVIII, se colocou ao serviço da económica, embora se tenha procurado escamotear esse facto.

Foi possível passar a mensagem de que a política é independente da economia porque, bem vistas as coisas, continua dominante, sobretudo através de instituições culturais, nomeadamente religiosas, uma interpretação idealista e voluntarista do processo histórico a qual ignora ostensivamente quanto as forças materiais, os modos de produção, influenciam a superestrutura política. O fenómeno é complexo e merece alguma reflexão.

É preciso perceber que a infraestrutura material não determina mecanicamente a superestrutura social e cultural, o que significa reconhecer que não basta existirem certas condições materiais, é preciso também que as condições culturais deem uma ajuda; se tal não for conseguido, o processo será extremamente difícil e pelo menos durante certo tempo - cuja duração não é previsível - pode nem ocorrer.

Um exemplo ilustra esta situação: não é por acaso que se fala em quarto poder em relaçao à comunicação social, porque através deste poder - soft power, como hoje se designa – convence-se as pessoas a pensarem de determinada maneira o que é tão importante quanto criar condições materiais que tornem possível uma mudança na forma de pensar. Isto para dizer que as condições materiais são necessárias, mas não são suficientes.

Se a democracia pressupõe igualdade e o capitalismo - a infraestrutura - supõe desigualdade profunda, a contradição é insanável, a menos que se adote uma visão idealista da histórica que está longe de ser empiricamente comprovável, carecendo, portanto, de fundamento científico. O caminho, até à data, tem sido o de ignorar o conflito, aquele que a grande maioria dos políticos das chamadas democracias liberais segue, uns de forma mais ou menos ingénua, outros nem tanto. Pretendem, mais ou menos ingenuamente também, que é a esfera política que, em última análise, “manda” na esfera económica, que a política goza de real independência face a esta porque os cidadãos, ao serem politicamente iguais, ao poderem votar, ao serem elegíveis para os cargos políticos, poderiam interferir, se assim o entendessem, na esfera económica, logo esta só é o que é porque aceitam, implicitamente, que corresponde ao melhor arranjo possível.

Todavia, se mais uma vez recorrermos ao laboratório que os factos históricos proporcionam, comprova-se efetivamente que o próprio liberalismo (teoria) e a democracia liberal (prática política) emanaram da necessidade de implantação e desenvolvimento do sistema capitalista que não se mostrava compatível com o predomínio de regimes políticos absolutistas. Era preciso acabar com classes sociais parasitárias cujos interesses obstaculizavam os da burguesia emergente e tal foi feito em nome de ideias nobres: liberdade, igualdade e democracia. Só que ninguém se lembrou de reparar que se tratava de liberdade, igualdade e democracia para a burguesia, para uma nova elite, para uma classe dominante com uma nova configuração - cujos interesses eram compatíveis com os interesses capitalistas. Esta nova elite  vai substituir o critério de "estatuto de nascimento" (que não lhe convém) pelo critério do "mérito" (que lhe é muito conveniente) sem reparar que tanto um como outro são excludentes, nada democráticos, e profundamente injustos do ponto de vista social, contribuindo para a prevalência de extrema miséria e desigualdade social – seria caso para dizer “as moscas mudam mas a merda é a mesma” (frase notável inventada por Brito Camacho para se referir a políticos do seu tempo – primeiras décadas do seculo XX).

Este novo arranjo político, a que chamaram pomposamente de democracia liberal tem muito pouco de democrático, e é nele que continuamos, enquanto o soft power nos convencer que não há alternativa e que este mundo em que vivemos é, à maneira leibniziana, o melhor dos mundos possíveis!!!

domingo, 2 de julho de 2023

 

Algumas reflexões sobre o populismo (de direita)

Os líderes populistas pertencem, como podemos facilmente constatar, a extratos privilegiados da sociedade. Lembremos Trump, multimilionário, mas também Boris Johnson ou até mesmo Jair Bolsonaro, no mínimo pertencentes à designada classe média/alta.

É assim algo paradoxal que estes líderes encontrem forte apoio nas classes populares mais vulneráveis e nos extratos da pequena burguesia, os quais teriam todos os motivos para neles não confiarem. Mas o facto é que conseguem convencê-los de que as suas atribulações e os seus inimigos são as classes populares de outos países, de outra raça, de outra etnia, de outra religião; para o efeito mobilizam sentimentos xenófobos, racista ou até mesmo sexistas, sempre prontos a aflorarem e a criarem uma qualquer forma de unanimismo e de identidade.

Isto acontece é certo porque, entretanto, o neoliberalismo teve o cuidado de destruir os núcleos organizados ligados à esquerda, que poderiam oferecer um contraponto a essa influência, como foi o caso do movimento sindical e dos empreendimentos cooperativos. Conta ainda com uma comunicação social nas mãos das elites dominantes que molda a opinião pública a seu bel prazer.

Neste contexto, as lideranças populistas conseguem mistificar as pessoas, levando-as a desvalorizar, ou mesmo a esquecer, as desigualdades económicas, que são de facto o que as marginaliza, para se centrarem nas desigualdades raciais, religiosas e culturais que, para o caso, são diferenças acessórias. Criam assim bodes expiatórios aos quais as pessoas passam a atribuir tudo o que de mau lhes acontece, que não mais é imputado ao sistema económico iníquo em que vivem. Claro que aos líderes não interessa que esse sistema seja posto em questão até porque beneficiam dele diretamente.

Em paralelo, continuando com a mistificação, lançam também as culpas à democracia que, alegam, não denota pulso forte ao permitir que essas outras classes populares se instalem no país e usufruam de benefícios que deviam ser reservados aos nacionais.

Este descrédito que lançam sobre a democracia é necessário, pois, uma vez descredibilizada, podem defender a autocracia como meio de retornar à ordem natural das coisas e de resolver os problemas.

Em síntese, o populismo (de direita) aproveita o vazio provocado pela demissão da esquerda para arregimentar os extratos populares que se tornam coniventes com uma agenda política que lhes é profundamente prejudicial. Em simultâneo destrói a democracia e instaura a autocracia e pelo caminho restaura os valores culturais que a favorecem: a religião, que tinha sido relegada pelo liberalismo para a esfera privada, volta a assumir um papel central; a família patriarcal, com os ‘meninos de azul’ e as ‘meninas de rosa’, retorna sub-repticiamente ao palco; e o nacionalismo, muito necessário para justificar guerras e conflitos que o sistema exija, volta a estar na ordem do dia.

Resumindo, o que o populismo pretende é o regresso ao passado que julgávamos já definitivamente superado. Pode acontecer que o consiga, pelo menos provisoriamente, e que nos estejam reservados maus bocados!  

sexta-feira, 19 de maio de 2023

 Comunicação social e desinformação

No Ocidente, pelo menos na maior parte dos países, ainda vivemos em democracias, as chamadas democracias liberais, que alguns designam de ‘democracias de baixa intensidade’, porque reduzidas à possibilidade de participação do eleitorado em votações de x em x anos; nestas democracias a função reguladora/repressora é exercida pela comunicação social e pela desinformação que esta promove.

Precisamente, Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, defende que uma democracia deste tipo, que conta com a desinformação sistemática das pessoas, fornecendo-lhes apenas a versão dos acontecimentos que favorece e interessa às elites no poder, é  mais eficiente do que os regimes ditatoriais, os quais  só serão percebidos como solução quando o sistema democrático liberal deixar de funcionar.

Nestas democracias, os indivíduos desinformados constituem a maioria da população e é de esperar que votem aquilo que as elites no poder pretendem que votem, com a vantagem acrescida de se alegar que as decisões políticas são democráticas porque os decisores foram maioritariamente sufragados. Poderíamos substituir o termo ‘desinformação’ por condicionamento: se sistematicamente nos dizem, nos mostram, das mais diversas maneiras, que a é bom e b é mau, é natural a nossa preferência por a, o contrário é que seria de espantar. 

Portanto o segredo do controlo de uma sociedade está no domínio da comunicação social; se esta for monopólio de elites economicamente poderosas, em princípio não vai ser requerido um aparato policial desmesurado nem vai ser preciso insistir em proibições ou manter a ameaça do recurso a uma força discricionária, porque será possível controlar por ´meios pacíficos' a população. A transição, se vier a verificar-se, para uma qualquer forma de ditadura será camuflada e esta provavelmente também será de baixa intensidade.

Isto acontece porque a desinformação tem-se revelado um meio de controlo político extremamente eficiente, melhor que a polícia política e a preferir-se sempre que for possível e enquanto continuar a ser possível; permite manter a farsa democrática: os governos são eleitos, os representantes são escolhidos, não há coação, não há imposição, há escolha da maioria. Esconde-se, todavia, que a maioria, por um lado, não percebe o que está a acontecer (quando percebe não vai votar, fica em casa), por outro, não lhe são dadas alternativas, pode escolher este ou aquele partido  mas entre eles  não há diferenças significativas, é só uma manobra de diversão.

Assim, o ideal é haver um número significativo de pessoas desinformadas o que não é difícil porque informar-se requer muito trabalho, ao passo que a desinformação é dada de mão beijada. Alguns que percebem o ludíbrio tendem a desistir porque intuem que nada podem fazer perante uma máquina tao bem lubrificada ou tendem a apoiar posições mais radicais, nomeadamente de extrema direita, ainda na falsa convicção de que finalmente esta poderá fazer a diferença.

O jornalista Raul Zibechi no seu artigo democracia e manipulação da opinião publica  cita alguns exemplos de desinformação bem-sucedidos que resultam da utilização de determinadas estratégias informativas; uma das mais utilizadas consiste em repetir uma determinada informação, que pode ou não corresponder à verdade dos factos, e omitir outras eventualmente com maior credibilidade, mas que não interessa que sejam divulgadas; deste modo acontecimentos importantes são abandonados pelos noticiários enquanto outros são constantemente repetidos. Outra manobra de desinformação consiste em ignorar o contexto em que os acontecimentos ocorrem e a sua historicidade e adulterar completamente a informação. Resumindo, há muitas maneiras de cozinhar as notícias de modo a criar desinformação e a comunicação social main stream não perde a oportunidade de o fazer, se tal for conveniente e se poder faze-lo. Deste modo, refere R. Zireki:

“Como destaca uma cobertura recente de El Salto: “os melhores conteúdos jornalísticos podem não ter qualquer consequência”, porque o poder e os meios de comunicação a seu serviço os ignoram.” *

Hoje, percebido o poder da comunicação social, que é mundialmente controlada, só se recorre ao golpe de estado quando por qualquer motivo a coisa não está mesmo assim a resultar, ou porque é demasiado difícil as populações engolirem tanta mentira e se rebelam e ocorre grande instabilidade social e então entra o golpe e o fascismo de seguida.

O que se pode fazer perante esta tão cruel realidade? Pode-se competir com o sistema? Não, mas pode-se tentar criar uma elite intelectual que comece a perceber a marosca e que a denuncie. Pode lutar-se nos interstícios: universidades, canais alternativos de comunicação, slogans criativos, e as pessoas a certa altura vão cansar e vão começar a soar campainhas.  Criar minorias informadas parece ser um caminho difícil, mas possível; supostamente mais tarde ou mais cedo vão ter eco na maioria, como já aconteceu no passado.

É preciso também passar a mensagem de que entrar no jogo eleitoral é fazer o jogo das elites no poder porque como acrescenta R. Zibechi:

“A partir do momento em que as opiniões e vontades das pessoas são moldadas e manipuladas por gigantescas maquinarias que escapam de qualquer controle que não seja o das classes dominantes, entrar no jogo eleitoral não tem futuro.”

Conseguir traduzir em slogans (gritos de guerra) ideias complexas é uma estratégia possível e um desafio a que urge responder; a alternativa é baixar os braços e deixar correr.


terça-feira, 16 de maio de 2023

 

Para percebermos a atração das massas pelo fascismo

Wilhelm Reich em A psicologia de massas do fascismo (1933) defende a tese de que as massas - os seres humanos enquanto coletivo, mais ou menos indiferenciados - têm uma tendência acentuada para se colocarem sob a autoridade de alguém que percebem como mais poderoso e, em boa verdade, lidam mal com a autonomia. Kant, século XVIII, um dos filósofos do Iluminismo, também já o tinha percebido.

Autonomia implica liberdade, mas liberdade pressupõe correr riscos e o risco exige coragem para enfrentar a adversidade e aceitar a derrota pois nem tudo corre sempre bem; ora a coragem é uma virtude muito deficientemente distribuída e as pessoas preferem sentir que não são responsáveis pelo que corre mal; gostam de lançar a responsabilidade sobre o outro; gostam de se colocar sob a proteção de um outro numa atitude de subserviência que dá oportunidade a que se demitam do exercício da liberdade.

Segundo Reich é, pois, preciso atentar na natureza humana para compreender o porquê da atração das massas pelo fascismo, mesmo se, dadas as suas condições objetivas de vida, fosse espectável que assumissem uma atitude antifascista. Neste sentido Reich considera que para perceber os fenómenos históricos é preciso também atentar nos fatores subjetivos.

Para compreender o fascismo teremos então de problematizar a natureza humana e nesta de identificar os traços mais persistentes; de entre esses, Reich destacou a atração pela autoridade e a tendência para o misticismo. Aceitando-se esta perspetiva sobre a natureza humana, somos levados a rever, ou pelo menos a reinterpretar, a conceção hobbesiana do ‘homem lobo do homem’; de facto o homem, naturalmente predador, até pode atacar o outro, mas perante o mais forte, muitos  acobardam-se e tendem a colocar-se na sua dependência; parece que à liberdade preferem a segurança e ficam facilmente reféns do espírito de manada.

Se não percebermos isto não percebemos o fascismo nem a atração que exerce sobre as massas, e do mesmo modo não percebemos que não se vence o fascismo enquanto não se verificar uma evolução na própria espécie humana que durante milhares de anos adorou ídolos, acreditou em divindades e em milagres, e se submeteu ao mais forte, comportamentos que conferiam um sentimento de segurança a seres que se percebiam demasiado frágeis  para ousarem duvidar, para ousarem saber a verdade.  O “sapere aude” de Kant, o ‘atreve-te a conhecer’, o ‘ousa saber’, não foi nunca o lema das massas.

A explicação adiantada por Wilhelm Reich para se compreender o fascismo e o fascínio que desperta nas massas é muito interessante e tem poder persuasivo; parte da constatação de que o psiquismo humano não teve como não refletir a sociedade autoritária patriarcal na qual os seres humanos viveram e em boa medida continuam a viver e que explica fenómenos de todos conhecidos como o colonialismo, o racismo, a misoginia, numa palavra a exploração dos seres humanos por outros seres humanos, apoiada em  sistemas de ideias que a justificam. Estes fenómenos, segundo Reich, só foram possíveis porque o caráter do ser humano foi moldado para aceitar a dominação e para considerar natural a dicotomia dominante/dominado, explorador/explorado que, com nuances, tem vigorado através dos séculos e dos milénios.

De acordo com a sua perspetiva, durante milhares de anos os seres humanos foram submetidos à exploração, à subjugação racial, à discriminação de género através de condicionamentos sociais fortíssimos, com recurso a sistemas de recompensa/punição. Nesse contexto, a estrutura psíquica das massas que suportaram tudo isso tornou-as totalmente dependentes da autoridade, incapazes de liberdade e propensas ao misticismo, que aqui funcionava como fuga imaginária da situação de miséria, não apenas física, mas também mental, em que viviam.

Não é obrigatório pensar essa estrutura psíquica como algo inato, o condicionamento social e a doutrinação, nomeadamente através das religiões, são suficientes para explicar a sua emergência e continuidade; mas explicar não é mudar, e, enquanto nada se fizer, ela permanecerá porque a sua raiz é profunda e antiquíssima. Para a mudar será preciso reestruturá-la, dar-lhe uma nova configuração.

Assim, a reestruturação do psiquismo humano exige por um lado condições materiais, objetivas, que a tornem viável, e, por outro, implica que se estimule nos seres humanos o pensamento critico e criativo, para que se apercebam dos processos a que têm estado submetidos, e se consigam como que reprogramar; isto é, são requeridas também condições subjetivas que apontam para um novo sujeito, uma nova subjetividade.

Enquanto não ocorrer tal reestruturação do psiquismo humano, as massas continuarão permeáveis ao fascismo porque precisamente este apela a sentimentos muito profundos que ainda não foram extirpados, ainda são dominantes. Casos históricos recentes constituem-se como evidência empírica desta asserção. Temos o exemplo de Donald Trump nos Estados Unidos, que foi eleito presidente em 2016 e que contou com o apoio de boa parte do operariado - classe média baixa. Esse apoio verificou-se sobretudo nos estados do ‘cinturão da ferrugem’ (Rust Belt) que tinham sido alvo de desindustrialização e deslocalização de empresas a partir da década de oitenta do século XX. 

Também Bolsonaro, no Brasil, contou com o apoio de extratos da população – classe média e classe média baixa - que deveriam em princípio rejeitá-lo.

Estes eventos históricos recentes, com a ascensão da extrema direita de pendor fascista ao poder, reforçam a ideia de que para perceber o fenómeno do fascismo e do apoio das classes populares é decisivo não idealizar o ‘proletariado’, ’os trabalhadores’, e perceber quão problemático é contar com a sua capacidade revolucionária; reforçam ainda a ideia, adiantada por Reich, de que é preciso, como atrás referido, tomar em consideração não apenas os fatores objetivos – condições de vida das populações -  mas também os subjetivos – a sua subjetividade, a sua estrutura psíquica – a sua maneira de sentir e de pensar.  

É muito importante que a esquerda perceba isto, porque no século XX, e continuo a seguir o pensamento de W. R, tendeu a explicar o processo histórico através das lentes do materialismo histórico, ferramenta fundamental que Marx disponibilizara, mas tendeu a aplicar o materialismo histórico de forma mecanicista e não dialética e julgou que os fatores objetivos, condições materiais e económicas, davam conta, isto é, explicavam o que acontecia. Cometeram o erro de descurar os fatores subjetivos e falharam completamente a compreensão do fascismo pois não perceberam que a este corresponderam condições objetivas - condição económica dos trabalhadores - mas também a maneira de ver destes, as soluções que imaginam para os problemas, uma maneira mística e uma resposta falhada, como aconteceu com os eleitores de Trump que,  ao invés de culparem o capitalismo, culpavam os imigrantes que lhes roubavam trabalho e contribuíam para o declínio da América com a conivência, alegavam, da elite letrada e endinheirada.

O caráter das pessoas também conta e o caráter do operariado não deve ser mitificado, não são ‘o bom povo’, são um povo injustiçado que tem sido explorado e continua a sê-lo muitas vezes através precisamente da sua tendência para o misticismo, tipificado em slogans proféticos como o celebre “Façamos a América grande de novo” (Make America great again), de Trump, ou como “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos,” proclamado por Bolsonaro. Num caso e no outro, convocam-se entidades míticas - A América, O Brasil - e esquecem-se muito oportunamente os seres humanos concretos de carne e osso, nada propondo no sentido de pôr termo à exploração e à injustiça social.

Assim e resumindo, para compreender a adesão das massas ao fascismo, fenómeno intrigante e paradoxal, é preciso compreender a estrutura psíquica da classe média, em particular da classe média baixa- vítima e cúmplice - que a uma análise mais realista revela ser preconceituosa, facilmente manipulável, ávida de bodes expiatórios, com tendência para mitificar e para aceitar mistificações. Só depois de a compreender será possível começar a delinear estratégias de intervenção no sentido de a alterar e reconfigurar. Ninguém diz que a tarefa é fácil, mas se não tentarmos nunca vamos saber. Ousemos saber!

terça-feira, 9 de maio de 2023

 

Neoliberalismo, extrema direita e fascismo

Em How will capitalism end? (2016), Wolfgang Streeck explica que com o fim do ciclo de crescimento do pós-guerra - década de oitenta do século passado - as classes que dependiam do lucro perceberam a globalização e a deslocalização das empresas capitalistas para a periferia do sistema como um caminho possível para continuarem a crescer com base na exploração do trabalho, em melhores condições de rentabilidade.

Havia requisitos materiais para que esse novo caminho pudesse ser percorrido, graças às novas tecnologias da comunicação e da informação, e o que era possível tornou-se real. Só que no curto prazo, o poder do trabalho e dos trabalhadores dos países centrais, nomeadamente dos Estados Unidos, enfraqueceu e diminui e aí entrou o neoliberalismo com a sua ideologia do empreendedorismo, do salve-se quem puder, como novo modelo económico, e com a crítica ao estado gastador e concomitante defesa da diminuição dos impostos para os ricos, que o não investimento na segurança social tornava viável. 

O desemprego aumentava, mas exigia-se do Estado disciplina económica, o que significava diminuição do teto de gastos com a segurança e proteção dos mais vulneráveis o que gerou descontentamento popular que era preciso canalizar, não de modo a responsabilizar o sistema económico, mas antes o seu braço político, a democracia liberal; era como se a democracia deixasse de ser funcional para o sistema económico.

É nesse contexto que entra a extrema direita, os governos populistas e uma espécie de neofascismo, e é aqui que de momento nos encontramos, com experiências já no terreno tanto na União Europeia como nos Estados Unidos e na América do Sul. "Nada de novo na frente ocidental!"

  O que é a democracia liberal? – uma resposta breve Se quiséssemos sintetizar numa expressão breve o que é a democracia liberal poderíamo...