sexta-feira, 28 de abril de 2023

 

O discurso populista - estratégia e objetivos

O discurso populista (da extrema direita) - vide em Portugal o caso do CHEGA - para ganhar a adesão popular explora os sentimentos de frustração das populações atribuindo as causas do mal-estar social que estas experimentam a fatores como (1) a corrupção, (2) a existência de elites políticas bem-pensantes, mas que se estão nas tintas para o povo e (3) a entrada de emigrantes no país.

O objetivo é conquistar apoio popular que lhe permita chegar ao poder através de eleições; a estratégia é explorar a afetividade e não a razoabilidade das pessoas, fornecendo respostas simples para os problemas, respostas intuitivas que se oferecem a um pensamento imediato que não as escrutina.   

As explicações fornecidas são simples, mesmo simplistas, porque ignoram a complexidade do problema; mas são reconfortantes porque na sua simplicidade o apresentam como facilmente resolúvel; são, todavia, falsas porque não identificam as suas verdadeiras causas, mas apenas circunstâncias coadjuvantes. Perceber isto é imprescindível para uma tomada de posição consciente, mas a maioria das pessoas milita na desinformação e vota com base nessa desinformação que interessa precisamente à elite dominante, representante de facto dos interesses do capital, mas que pode sempre alegar legitimidade porque afinal foi confirmada pelo voto popular.

De facto, embora as causas que se encontram na origem das frustrações sentidas pelas pessoas estejam ligadas à corrupção, às elites politicas dirigentes e a fenómenos migratórios,  decorrem acima de tudo do modo de funcionamento do sistema económico capitalista porque é este, reparemos, que gera a corrupção, isto é, que corrompe;  é este que manipula as elites politicas para estas defenderem os interesses dos capitalistas e é este que espolia povos de outras regiões dos seus recursos naturais, de tal modo que estes se veem impossibilitados de viver nas suas próprias terras e procuram a sobrevivência em outras paragens.

Com isto quero dizer que o capitalismo consegue a proeza de mistificar a real situação que determina a vida social, isto é, consegue escamotear os fatores económicos, que são primários, para colocar os fatores políticos, que são derivados, na ribalta, levando as pessoas a pensarem que a responsabilidade pelo que corre mal é do sistema político, é dos políticos e, em última análise, da própria democracia.

Esta mistificação torna difícil reconhecer verdades incontestáveis:

·        De facto, só existe corrupção política porque os capitalistas precisam que os políticos aprovem medidas que os favoreçam, isto é, existe corrupção porque há corruptores. Logo, para eliminar a corrupção há que eliminar os corruptores – é essa a chave da questão;

·        Por outro lado, a elite política, genericamente falando, tem interesses coincidentes com os dos capitalistas pois que a democracia liberal teve desde sempre um problema de representatividade; isto é, começou por representar só os proprietários e ainda hoje são fundamentalmente os filhos da burguesia que ascendem ao poder político, não os do povo, logo está muito longe de ser uma  democracia de facto: um governo do povo, para o povo e pelo povo. Logo para eliminar este problema haveria que encontrar mecanismos que garantissem que os representantes políticos representam o povo e não tao somente os capitalistas e os seus interesses - que é o que efetivamente acontece;

·        Quanto aos emigrantes, facilmente se percebe que invocá-los para explicar os desaires que os nacionais experimentam é mero recurso à estratégia do bode expiatório, para aliviar a pressão e permitir que o ódio se dirija para estes e não para os responsáveis pela situação.

Ora enquanto o capitalismo existir e os capitalistas forem os detentores do poder económico, o qual por sua vez lhes permite dominarem o aparelho cultural, nomeadamente os órgãos de informação, a mistificação vai continuar e muito provavelmente governos populistas vão dar uma ajuda preciosa à manutenção do sistema, recorrendo, se necessário, à força e a uma ordem política que supúnhamos já superada.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

 

Ordem política unipolar ou multipolar – em que ficamos?

A ordem política mundial unipolar, caraterizada pela hegemonia dos Estados Unidos, existe praticamente desde o termo da segunda guerra mundial que devastou a Europa e lhe reservou o palco e o protagonismo.

Ora, no século XXI, mais precisamente no início da terceira década, China e Rússia pretendem eliminar essa ordem e substitui-la por uma de natureza multipolar. Nada de mais legítimo, parece! Quem não concordar deve apresentar argumentos, pois cabe-lhe o ónus da prova.

O ‘império’ norte-americano reage como seria de esperar e, através dos seus braços tentaculares, tem procurado minar o acerto entre a China e a Rússia; ainda recentemente, às vésperas da visita do líder chinês à Rússia, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandato de prisão contra Putin sob a acusação de que este seria um criminoso de guerra; esquecia piedosamente a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, à revelia do direito internacional, bem como outras inúmeras tropelias. Nitidamente, dois pesos e duas medidas: se é russo é criminoso, se é norte americano é herói nacional. 

Por outro lado, é hoje bastante óbvio que a invasão da Ucrânia pela Rússia foi provocada pela ameaça que os Estados Unidos, via OTAN, representavam para a segurança e integridade territorial da Rússia e que esta guerra se constituiu como uma guerra por procuração visando enfraquecer a Rússia para de seguida transformar a China num alvo legítimo de ataque, obrigando esta a reagir em relaçao a Taiwan, que os Estados Unidos tentam ‘anexar’ informalmente. Como se vê a estratégia é a mesma e tem o mesmo objetivo: criar condições que levaram primeiro a Rússia e depois poderão levar a China a tomar a iniciativa de atacar para puderem dizer, à boca cheia, que há um agressor e um agredido e que o Ocidente, por motivo dos seus elevados padrões éticos, é obrigado a intervir a favor do agredido. Hipocrisia maior é difícil de imaginar, mas bem cozinhada pelos media é engolida pelas populações que não percebem os contornos capitalistas destas guerras e que alinham sem questionar, não entendendo que são instrumentalizadas para que a acumulação capitalista e o enriquecimento dos seus promotores possa ocorrer, enquanto o cidadão comum é convidado a fazer sacrifícios e a empobrecer a ritmo acelerado. Depois, se der, “os donos disto tudo” distribuem algumas migalhas do banquete que estão a preparar.  

No meio há um pormenor que pareceu escapar ao império; será que não percebeu que a aliança entre Rússia e China seria inevitável, que estava a lançar uns nos braços dos outros, como Kissinger, com a sua esperteza de rato, rapidamente percebeu? Será que os Estados Unidos não entenderam que estavam a ir além da conta? Ou será que num sistema capitalista este tipo de fenómeno é inevitável, para se processar a acumulação de capital nas mãos de uns em detrimento de outros? Uma espécie de jogo de soma zero, tipo: +1 -1= 0; ou seja, o que eu ganho o outro perde.

Em sequência, a China tem vindo a posicionar-se no sentido de ser um elemento importante na mediação de conflitos entre outros países, vide o caso mais flagrante do acordo entre Irão e Arábia Saudita que intermediou. Este apaziguamento é um sério revés para os Estados Unidos que sabotaram o gasoduto Nord stream 2 que abastecia 40% da união europeia.

Resumindo, pode dizer-se que, enquanto os Estados Unidos parecem privilegiar a competição, a China procura promover a cooperação ao invés do conflito. É essa a imagem que passa.

Todavia, para fragilizar qualquer eventual apoio às pretensões de se pôr um termo a ordem mundial unipolar, alega-se que China, Rússia, Irão, e Arábia Saudita são países autoritários e tal é verdadeiro; mas que dizer dos países que, como os E. U, se apresentam como não autoritários? O facto é que, enquanto os primeiros se centram na cooperação, este último estimula a guerra e a competição com o objetivo de mandar nos outros, apresentando-se internamente democrático, mas comportando-se externamente de forma profundamente antidemocrática.

Ora para compreender o processo histórico é preciso levar em conta os circunstancialismos históricos: é facto que a China tem um regime autoritário, mas também é facto que promove um entendimento entre países não na base da dominação, mas na base da cooperação. Assim sendo, neste contexto histórico quem devemos apoiar?  Alem disso, o sucesso da China é para já o sucesso de um mundo multipolar e perguntemo-nos: o que é mais conveniente para as nações e para a sua autonomia e não opressão? É um sistema mundial unipolar ou o multipolarismo? Este implica cooperação, aquele estimula naturalmente a competição porque faz parte da lógica do sistema e a lógica é inelutável.

Por isso, falemos um pouco de lógica. A lógica a que se costuma recorrer é a lógica binária, de raiz aristotélica. Só admite dois polos o branco e o preto, o verdadeiro e o falso; é a lógica do princípio de identidade, do “ou é ou não é”, é uma lógica não dialética, pensada para enquadrar uma realidade estática. Mas a realidade é dinâmica, e essa lógica por esse motivo não permite compreender que estados autoritários em política interna possam ser não autoritários em política externa e vice-versa, não percebe as nuances. 

Também não permite compreender que os estados autoritários são estados que frequentemente se formaram libertando-se de um estado hegemónico (vide o exemplo flagrante de Cuba) e que até por uma questão de sobrevivência face a eventuais ataques do estado hegemónico se viram obrigados a organizar-se de forma autoritária, de modo a criar uma barreira impenetrável. Por exemplo, é bastante óbvio que a China, se não contasse com um aparelho estatal forte e autoritário, já tinha sido desmembrada pelo estado hegemónico (é bom não esquecer que a China embora nunca tenha sido uma colonia do Ocidente - colonialismo de assentamento- mesmo assim este, através do império britânico, procurou impor-lhe os seus interesses específicos e oprimi-la.

 Isto deve fazer-nos refletir sobre as causas e os antecedentes dos regimes ditos autoritários, pelo menos de alguns deles e deve-nos levar a abandonar o senso comum simplista que nos empurra para respostas fáceis, mas enganosas e que é enquadrado pela lógica binária que acima referimos. Deve obrigar-nos a pensar dialeticamente.

sábado, 1 de abril de 2023

 


A existência de ricos e de pobres - mérito de uns, demérito de outros!  

Para abordar o tema em epígrafe, escolhi  dar-vos a conhecer um excerto de Marx, que complemento com a minha interpretação e  apreciação critica .

“Em tempos muito remotos, havia, por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa, e, por outro, vagabundos dissipando tudo o que tinham e mais ainda. A legenda do pecado original teológico conta-nos, contudo, como o homem foi condenado a comer seu pão com o suor de seu rosto; a história do pecado original econômico, no entanto revela-nos por que há gente que não tem necessidade disso. Tanto faz. Assim se explica que os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada tinham para vender senão sua própria pele. E desse pecado original data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo o seu trabalho, nada possui para vender senão a si mesma, e a riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de trabalhar.”

Marx. O Capital, cap. XXIV p. 339.

A existência de ricos e de pobres não é um fenómeno dos nossos dias; tanto quanto podemos remontar no tempo sempre existiu. Tal acontece porque as pessoas são diferentes, algumas têm certas qualidades: inteligência, capacidade de trabalho e de previsibilidade; outras, pelos vistos a vasta maioria, são:  pouco inteligentes, preguiçosas e, não olhando ao futuro, gastam tudo o que no momento têm. Dado este contexto em que a vida da humanidade decorreu, esta situação social - ricos de um lado, pobres do outro - é justa porque é baseada no mérito de uns e no demérito de outros.

Utilizando uma analogia com  o pecado original para que a Bíblia remete, pode dizer-se que o pecado económico original consistiu em que a maioria não trabalhou o suficiente, preguiçou bastante, gastou tudo e por isso foi condenada a trabalhar perpetuamente; os outros – uma minoria - escaparam ao castigo e podem viver sem trabalhar ou pelo menos ocupando o seu tempo de uma maneira que no mínimo é prazerosa para eles, já que tem antecipadamente assegurada a sua subsistência.

Este pecado económico original permite compreender a acumulação de riqueza e de recursos nas mãos de apenas alguns e o facto de os outros terem de se lhes sujeitar e de se vender (vender a sua força de trabalho) para subsistirem.

Em poucas, mas brilhantes palavras, Marx, recorrendo à ironia como figura de estilo, faz nos perceber como através dos tempos se tem perpetuado o sistema social de classes,  justificado de uma maneira inteligível para a maioria das pessoas que aceita essa justificação como muito plausível porque parece corresponder ao que é justo - à ordem natural das coisas.

Todavia, se refletirmos um pouco, é fácil reconhecer que não há mérito nenhum em ser mais inteligente e mais diligente; de facto, são qualidades positivas, é certo, mas ninguém escolheu nascer com elas dotado nem escolheu nascer numa família e num meio social que cria um ambiente favorável ao seu desenvolvimento.

O mérito e o demérito não são critério de justiça, nada há de justo ou injusto neles. A justiça tem de ser balizada por outros critérios e estes passam por criar condições de subsistência para todos e por assegurar, também para todos, condições que permitam que não sejam oprimidos por outros e possam desenvolver o seu potencial – isto é, aquilo que podem vir a ser e a realizar de positivo nas suas vidas.

domingo, 26 de março de 2023


Neoliberalismo e feminismo

O neoliberalismo desde cedo percebeu como era importante ganhar a guerra cultural; temos disso a prova provada na invenção e divulgação da novilíngua, uma espécie de revolução silenciosa de que nem sequer nos apercebemos e também no apoio a uma nova tendência dentro do movimento feminista que podemos apelidar de feminismo neoliberal.

Abro aqui um parêntesis para explicitar que a guerra cultural, até ao momento ganha pelo neoliberalismo, basicamente tem por objetivo mudar as mentalidades, construindo novas categorias concetuais que uma vez assimiladas e utilizadas pelas pessoas no seu linguajar corrente alteram as suas perceções, o seu modo de pensar a si mesmas e à realidade. David Harvey em A Brief History of Neoliberalism  chama a nossa atenção para este fenómeno pelo qual o neoliberalismo conseguiu transformar, por via discursiva, de forma pacífica e trivial, as suas ideias fortes  em senso comum: aquilo que toda a gente afirma e pensa sem se aperceber que está a reproduzir os estereótipos do sistema neoliberal em que vive.

Neste contexto de matriz cultural, o neoliberalismo, não podendo ignorar o feminismo, procurou cooptá-lo para a causa. Reconheceu que este movimento atrai um número considerável de mulheres e de mulheres altamente colocadas socialmente, e seguiu o velho ditado: se não podes vencer o inimigo, junta-te a ele.  

Como seria de esperar, privilegiou a fação menos radical do feminismo, precisamente a do feminismo liberal, mas, mesmo assim, ainda o expurgou da dimensão social e contestatária e empenhou-se, sobretudo, na construção de uma nova subjetividade feminista.

Apostou num novo modo da mulher feminista se perceber a si mesma. E de acordo com os princípios neoliberais, esta vai perceber-se como um sujeito autónomo, responsável por si e pelas suas opções; um sujeito que, por exemplo, pesa os custos/benefícios de se engajar numa carreira profissional e decide livremente. É a racionalidade neoliberal que fornece o modelo: a liberdade de escolha está garantida (formalmente) e cabe a cada uma fazer o que bem entender com essa liberdade.

Assim, enquanto o feminismo liberal ainda correspondeu a uma exigência e a uma crítica ao sistema liberal, que não estava a reconhecer às mulheres os direitos que reivindicava para os homens e as excluía da esfera pública, o feminismo neoliberal adapta-se ao sistema, ao qual não exige nenhuma alteração, pelo que parece legítimo concluir que se vai colocar ao seu serviço e não das próprias mulheres, achando provavelmente que este lhes convém e responde às suas necessidades fundamentais.

Com esta posição, o feminismo neoliberal, embora reconheça a desigualdade de género, dado o enquadramento individualista em que se insere, esquece muito oportunamente o problema estrutural da descriminação, esse sim complexo e impossível de resolver com meras declarações formais. Pretende que serão as mulheres, individualmente falando, que terão de lutar pelos seus direitos pois não atribui essa desigualdade a fatores económicos, sociais e culturais, mas ao facto de as próprias mulheres terem interiorizado impedimentos que afinal dependem delas próprias para serem ultrapassados.

Este tipo de feminismo passa completamente ao lado da análise das estruturas de poder que favorecem a dominação masculina. Não reconhece que há estruturas sociais que obstaculizam a igualdade de direitos entre homens e mulheres e atribui a culpa pela não integração na vida política, no mercado de trabalho, etc., às próprias mulheres, que teriam interiorizado barreiras inibidoras (cfr. Sandberg, Lean In). Claro que fica por explicar porque é que as mulheres têm barreiras interiores que as impedem de progredir na esfera pública, é tudo reduzido à fórmula do “querer é poder” que muitas de nós aprendemos na mais tenra infância e de que nunca mais nos livramos.

Claro que uma conceção atomística de sociedade e a negação da existência das estruturas informais que regulam e enquadram as relações sociais só pode dar no voluntarismo: as mulheres não fazem mais porque não querem, não tem força de vontade …. Desse modo, ‘escolha livre’, ‘igualdade de oportunidades’, ‘ponderação de custos/benefícios’, são os chavões do feminismo neoliberal.

Com esse “aggiornamento”, o neoliberalismo obteve um ganho acrescido, mostrou a modernidade da democracia liberal que afinal, ao incluir também pautas feministas, corresponderia ao melhor dos mundos possíveis, bastando para tal estabelecer comparação com outros países que não são democracias liberais, nos quais as mulheres continuam marginalizadas da vida social e política. Não foi proeza menor!

sexta-feira, 24 de março de 2023

 

Os pés de barro do liberalismo

O liberalismo é uma teoria política que podemos designar de idealista porque ignora a base material - nela incluídos os circunstancialismos históricos - que se encontram a montante das ideias e das formações políticas. Citemos alguns casos que confirmam esta asserção; por exemplo, o liberalismo:

·        Ignora que o princípio da ‘soberania popular’ só foi defendido pela revolução burguesa porque no momento histórico em que se vivia – finais da época moderna - era preciso incluir o povo no processo emancipatório relativamente ao poder monárquico absoluto, para que o movimento ganhasse expressão e saísse vitorioso. Mas logo de seguida torneou a questão e restringiu o direito de voto apenas aos proprietários. É certo que, posteriormente, a duras penas, o direito de voto foi alargado, mas as opções propostas passaram a ser entre a e b sendo a e b ‘farinha do mesmo saco’. Portanto, poderia legitimamente perguntar-se: como é que pode haver soberania popular se o povo sequer tem representação política ou se não existem reais opções?

·        Desconsidera que o princípio da ‘divisão tripartida do poder’ só foi defendido porque interessava tirar aos monarcas e aos seus acólitos aristocratas a concentração do poder; de seguida, que este se voltasse a concentrar nas mãos, agora, da burguesia, mas não do povo, era problema menor. Mas pode legitimamente colocar-se em questão que uma independência formal entre os poderes signifique independência real.

·        Omite que defende as ‘liberdades individuais’ porque percebe que não há qualquer perigo de que estas venham a pôr em risco os interesses dos indivíduos das classes privilegiadas porque são estes que têm condições materiais para delas usufruírem, Para os outros – a vasta maioria - serão liberdades formais de escasso ou mesmo nulo alcance. Todavia pode questionar-se o valor das liberdades individuais quando estas de facto são apenas para alguns.

·        Não admite que se recusa a aceitar a existência de classes sociais e só reconhece existência aos indivíduos isolados porque à elite interessa a atomização social que lhe é profundamente favorável: indivíduos isolados, competidores e indiferentes à sorte alheia não têm poder reivindicativo, não vão ser exigentes, não vão colocar em risco o sistema. Cumpre então perguntar, a quem afinal convém uma conceção individualista de sociedade?

·        Não quer perceber que, enquanto teoria política, se encontra vocacionado para a defesa dos interesses não de todos os indivíduos, que define formalmente como iguais e livres, mas tão simplesmente de uma classe social, no caso, a burguesia. É de indagar com que legitimidade se arroga o direito de se auto proclamar ’democrática’.

Os princípios acima referidos: ‘soberania popular’; ‘divisão tripartida dos poderes’; ‘individualismo’; ‘liberdades individuais’; ‘democracia’, são princípios fundamentais defendidos pelo liberalismo. Se se prova que estes princípios, tal como o liberalismo os apresenta, não resistem a uma análise crítica reveladora do viés que os coloca a serviço da elite dominante, que resta do liberalismo?  O que é que o distingue dos regimes totalitários que pretende execrar?

De resto já começamos a ver, em países liberais e civilizados, as ameaças de novos fascismos adaptados aos novos tempos e já começamos a ver partidos liberais a não rejeitarem a ideia de fazer alianças de governo com partidos de extrema direita. Isto permite prever que as elites, se virem ameaçados os seus interesses, não hesitarão em colaborar, embora a contragosto, com partidos de vocação totalitária: vão-se os anéis, mas fiquem os dedos.

quarta-feira, 22 de março de 2023

 

É o Capitalismo, estúpido!

É preciso que percebam de uma vez por todas que as causas dos males que nos afligem não estão com os políticos, nem com a esfera política, mas decorrem do sistema económico em que vivemos que é o capitalismo.

Os políticos são tão simplesmente a fachada de que o capitalismo se serve para navegar e se manter. De resto é fácil ver que, quando os governos não se prestam e pretendem fugir à subserviência aos seus ‘senhores’, são rapidamente derrubados ou desprestigiados e acabam por perder a eleição seguinte, numa palavra, são afastados, ou por meios violentos ou por meios 'pacíficos' e legais. Isto é fácil de conseguir desde que se domine a comunicação social nas suas formas mais importantes e de maior capacidade interventiva e nós sabemos - penso que é consensual - quem domina a comunicação social, tanto a clássica como a digital, logo, quem mexe os cordelinhos do poder no qual os políticos são as marionetes, os fantoches.  

O segredo do sucesso do capitalismo tem residido em boa parte no facto de manter a aparência e o verniz democrático, que, todavia, está cada vez a estalar mais, permanecendo ele próprio profundamente antidemocrático. Fala em liberdade, mas esconde que a liberdade que lhe interessa é a dos mercados, ora quem domina os mercados são obviamente as corporações capitalistas, nomeadamente os bancos e o setor financeiro em geral. Fala em direitos humanos, todavia ignora ostensivamente que a primeira e básica condição para gozar direitos é ter asseguradas as condições materiais de sobrevivência, mas sobre isso diz zero e faz nada; bem ao contrário.

Portanto será bom começarem a perder o medo e restaurarem palavras de ordem que levem as pessoas a perceber onde reside o problema, e o problema reside no sistema de vida social que o capitalismo engendra. Só assim, encontrando a causa, se pode começar a pensar em soluções possíveis para a eliminar; se pode começar a imaginar e a figurar um futuro diferente.  Neste aspeto os partidos de esquerda, na sua maioria de esquerda liberal, ainda alimentam a ideia peregrina de que o capitalismo é remodelável e por isso nem falam nele, falam sempre em medidas pontuais, exemplo, aumento de salários, melhores serviços públicos, política anticorrupção, etc., isto é, atacam os sintomas, mas não a causa da doença. Atacam os políticos, mas não os poderes económicos que os sustentam  Estes partidos são muito bem-comportados e, com tal procedimento, tornam-se perfeitamente irrelevantes; por isso o sistema capitalista permite a sua existência, até para mostrar que afinal é pluralista. Só não percebe isto quem não quer ver.

domingo, 12 de março de 2023

 

Hegemonia e expansão do neoliberalismo – causas e condições

Em primeiro lugar precisamos perceber que o neoliberalismo não é na sua essência diferente do liberalismo e já estava no bojo do liberalismo, só que  a revolução soviética de 1917, com a promessa de instauração de um regime socialista, levou as democracias liberais a darem passos atrás e a fazerem cedências que se traduziram no designado ‘estado de bem-estar social’.

O estado de bem-estar social implicou o reforço do papel do Estado no controle da economia, retirando ao mercado setores que se entendeu não deverem ser regidos pelo princípio liberal da oferta e da procura. Todavia, tao logo as circunstâncias se alteraram, o neoliberalismo surgiu e retomou o projeto liberal na sua pureza originária.

A partir daí, os anos de ouro de políticas keynesianas (1930 -1970) foram postos de lado assim que se perceberam as fragilidades da união soviética, o que foi precipitado pelas crises do petróleo de 1973 e de 1979 que levaram a uma quebra significativa da acumulação capitalista – leia-se lucros das empresas. Com estas crises, as elites sentiram-se ameaçadas pois os seus lucros diminuíram muito e viram-se obrigadas, para se manterem enquanto elites, a adotarem o novo programa.

O programa neoliberal começou a ser posto em prática a partir dos finais da década de setenta, no Reino Unido com M. Tatcher e nos Estados unidos com R. Reagan. Contou com instrumentos como o Banco Mundial e como o Fundo Monetário Internacional (FMI), organização internacional que tinha sido criada em 1944 na Conferencia de Bretton-Woods com o objetivo de ajudar a manter estável o sistema monetário internacional e a emprestar temporariamente dinheiro a países em crise.  Esse fundo foi inicialmente constituído por 29 países membros que para ele contribuíam e posteriormente alargado. Nesta instituição, o país que praticamente tinha saído incólume da guerra - os Estados Unidos da América – pode impor a sua perceção da economia e dos mecanismos que deviam ser adotados para reequilibrar as contas públicas de países endividados - a famosa dívida pública.

O FMI constituiu  a porta de entrada do neoliberalismo em muitos países que endividados e precisando de dinheiro tiveram de se sujeitar para o receber a adotar politicas neoliberais: privatizações, redução dos serviços sociais do estado,  reforma do mercado de trabalho flexibilizando  o emprego ou melhor facilitando os despedimentos. Aquilo que na nova terminologia se designava de ‘ajustamento estrutural’ exigia sacrifícios às classes trabalhadoras tanto pela perda de direitos trabalhistas como pela perda de direitos sociais -  corte direto e indireto dos direitos dos trabalhadores, obtido através da estagnação dos salários e de cortes nos benefícios sociais, com o argumento de que o Estado não podia continuar a ser perdulário e era preciso equilibrar as contas públicas ( não se cogitava sequer que tal poderia/deveria ser feito através de impostos progressivos sobre a riqueza e seus detentores).

Isto foi feito na América do Sul e posteriormente em vários países europeus. Significou privatizações, entrada de investidores estrangeiros que compram nas melhores condições para si mesmas as empresas a privatizar.

Neste contexto, por um lada a necessidade sentida de criar circunstancias mais favoráveis ao capital e, por outro, a possibilidade de o fazer, dado não haver condições de contestação, criaram o clima perfeito para se instaurarem as políticas neoliberais que, de seguida, através do aparelho cultural e das  instituições acima referidas se tornaram hegemónicas e que a potência que liderou  o processo– os Estados Unidos - pôde impor a muitos outros países, ou pela força pura e dura (golpes de Estado) ou pela imposição de políticas económicas que esses países não se encontravam em condições de recusar. Temos o exemplo do Chile no primeiro caso, que afastou pela força o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, e de outros países. No segundo caso, também na América latina, muitos países mergulhados em crise económica profunda viram-se obrigados a apelar ao FMI e a aceitar as condições draconianas por este impostas. Posteriormente na sequência da crise de 2008, Portugal, Grécia e outros países europeus experimentaram a mesma pressão e foi-lhes prescrita a mesma receita.

Portanto, resumindo, na imposição e hegemonia do neoliberalismo temos o choque petrolífero da década de setenta, o empobrecimento de muitos países que foram alvo ou de golpes de estado ou da imposição de políticas neoliberais para responder às crises por que passavam, provocadas elas propiás pelo sistema capitalista, mas ‘pagas ‘pelo povo. Esta situação foi resumida numa tirada que se tornou clássica, a qual diz que o capitalismo, em tempos de 'vacas gordas', privatiza os lucros; em tempos de crise, socializa os prejuízos.

Assim vai o mundo. Querem melhor? Então não esqueçam que a inteligência é uma força mas que se não ficarem espertos vão continuar a ser comidos pelos outros! Tão certo como dois e dois somarem quatro. 

  O que é a democracia liberal? – uma resposta breve Se quiséssemos sintetizar numa expressão breve o que é a democracia liberal poderíamo...