domingo, 2 de julho de 2023

 

Algumas reflexões sobre o populismo (de direita)

Os líderes populistas pertencem, como podemos facilmente constatar, a extratos privilegiados da sociedade. Lembremos Trump, multimilionário, mas também Boris Johnson ou até mesmo Jair Bolsonaro, no mínimo pertencentes à designada classe média/alta.

É assim algo paradoxal que estes líderes encontrem forte apoio nas classes populares mais vulneráveis e nos extratos da pequena burguesia, os quais teriam todos os motivos para neles não confiarem. Mas o facto é que conseguem convencê-los de que as suas atribulações e os seus inimigos são as classes populares de outos países, de outra raça, de outra etnia, de outra religião; para o efeito mobilizam sentimentos xenófobos, racista ou até mesmo sexistas, sempre prontos a aflorarem e a criarem uma qualquer forma de unanimismo e de identidade.

Isto acontece é certo porque, entretanto, o neoliberalismo teve o cuidado de destruir os núcleos organizados ligados à esquerda, que poderiam oferecer um contraponto a essa influência, como foi o caso do movimento sindical e dos empreendimentos cooperativos. Conta ainda com uma comunicação social nas mãos das elites dominantes que molda a opinião pública a seu bel prazer.

Neste contexto, as lideranças populistas conseguem mistificar as pessoas, levando-as a desvalorizar, ou mesmo a esquecer, as desigualdades económicas, que são de facto o que as marginaliza, para se centrarem nas desigualdades raciais, religiosas e culturais que, para o caso, são diferenças acessórias. Criam assim bodes expiatórios aos quais as pessoas passam a atribuir tudo o que de mau lhes acontece, que não mais é imputado ao sistema económico iníquo em que vivem. Claro que aos líderes não interessa que esse sistema seja posto em questão até porque beneficiam dele diretamente.

Em paralelo, continuando com a mistificação, lançam também as culpas à democracia que, alegam, não denota pulso forte ao permitir que essas outras classes populares se instalem no país e usufruam de benefícios que deviam ser reservados aos nacionais.

Este descrédito que lançam sobre a democracia é necessário, pois, uma vez descredibilizada, podem defender a autocracia como meio de retornar à ordem natural das coisas e de resolver os problemas.

Em síntese, o populismo (de direita) aproveita o vazio provocado pela demissão da esquerda para arregimentar os extratos populares que se tornam coniventes com uma agenda política que lhes é profundamente prejudicial. Em simultâneo destrói a democracia e instaura a autocracia e pelo caminho restaura os valores culturais que a favorecem: a religião, que tinha sido relegada pelo liberalismo para a esfera privada, volta a assumir um papel central; a família patriarcal, com os ‘meninos de azul’ e as ‘meninas de rosa’, retorna sub-repticiamente ao palco; e o nacionalismo, muito necessário para justificar guerras e conflitos que o sistema exija, volta a estar na ordem do dia.

Resumindo, o que o populismo pretende é o regresso ao passado que julgávamos já definitivamente superado. Pode acontecer que o consiga, pelo menos provisoriamente, e que nos estejam reservados maus bocados!  

sexta-feira, 19 de maio de 2023

 Comunicação social e desinformação

No Ocidente, pelo menos na maior parte dos países, ainda vivemos em democracias, as chamadas democracias liberais, que alguns designam de ‘democracias de baixa intensidade’, porque reduzidas à possibilidade de participação do eleitorado em votações de x em x anos; nestas democracias a função reguladora/repressora é exercida pela comunicação social e pela desinformação que esta promove.

Precisamente, Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, defende que uma democracia deste tipo, que conta com a desinformação sistemática das pessoas, fornecendo-lhes apenas a versão dos acontecimentos que favorece e interessa às elites no poder, é  mais eficiente do que os regimes ditatoriais, os quais  só serão percebidos como solução quando o sistema democrático liberal deixar de funcionar.

Nestas democracias, os indivíduos desinformados constituem a maioria da população e é de esperar que votem aquilo que as elites no poder pretendem que votem, com a vantagem acrescida de se alegar que as decisões políticas são democráticas porque os decisores foram maioritariamente sufragados. Poderíamos substituir o termo ‘desinformação’ por condicionamento: se sistematicamente nos dizem, nos mostram, das mais diversas maneiras, que a é bom e b é mau, é natural a nossa preferência por a, o contrário é que seria de espantar. 

Portanto o segredo do controlo de uma sociedade está no domínio da comunicação social; se esta for monopólio de elites economicamente poderosas, em princípio não vai ser requerido um aparato policial desmesurado nem vai ser preciso insistir em proibições ou manter a ameaça do recurso a uma força discricionária, porque será possível controlar por ´meios pacíficos' a população. A transição, se vier a verificar-se, para uma qualquer forma de ditadura será camuflada e esta provavelmente também será de baixa intensidade.

Isto acontece porque a desinformação tem-se revelado um meio de controlo político extremamente eficiente, melhor que a polícia política e a preferir-se sempre que for possível e enquanto continuar a ser possível; permite manter a farsa democrática: os governos são eleitos, os representantes são escolhidos, não há coação, não há imposição, há escolha da maioria. Esconde-se, todavia, que a maioria, por um lado, não percebe o que está a acontecer (quando percebe não vai votar, fica em casa), por outro, não lhe são dadas alternativas, pode escolher este ou aquele partido  mas entre eles  não há diferenças significativas, é só uma manobra de diversão.

Assim, o ideal é haver um número significativo de pessoas desinformadas o que não é difícil porque informar-se requer muito trabalho, ao passo que a desinformação é dada de mão beijada. Alguns que percebem o ludíbrio tendem a desistir porque intuem que nada podem fazer perante uma máquina tao bem lubrificada ou tendem a apoiar posições mais radicais, nomeadamente de extrema direita, ainda na falsa convicção de que finalmente esta poderá fazer a diferença.

O jornalista Raul Zibechi no seu artigo democracia e manipulação da opinião publica  cita alguns exemplos de desinformação bem-sucedidos que resultam da utilização de determinadas estratégias informativas; uma das mais utilizadas consiste em repetir uma determinada informação, que pode ou não corresponder à verdade dos factos, e omitir outras eventualmente com maior credibilidade, mas que não interessa que sejam divulgadas; deste modo acontecimentos importantes são abandonados pelos noticiários enquanto outros são constantemente repetidos. Outra manobra de desinformação consiste em ignorar o contexto em que os acontecimentos ocorrem e a sua historicidade e adulterar completamente a informação. Resumindo, há muitas maneiras de cozinhar as notícias de modo a criar desinformação e a comunicação social main stream não perde a oportunidade de o fazer, se tal for conveniente e se poder faze-lo. Deste modo, refere R. Zireki:

“Como destaca uma cobertura recente de El Salto: “os melhores conteúdos jornalísticos podem não ter qualquer consequência”, porque o poder e os meios de comunicação a seu serviço os ignoram.” *

Hoje, percebido o poder da comunicação social, que é mundialmente controlada, só se recorre ao golpe de estado quando por qualquer motivo a coisa não está mesmo assim a resultar, ou porque é demasiado difícil as populações engolirem tanta mentira e se rebelam e ocorre grande instabilidade social e então entra o golpe e o fascismo de seguida.

O que se pode fazer perante esta tão cruel realidade? Pode-se competir com o sistema? Não, mas pode-se tentar criar uma elite intelectual que comece a perceber a marosca e que a denuncie. Pode lutar-se nos interstícios: universidades, canais alternativos de comunicação, slogans criativos, e as pessoas a certa altura vão cansar e vão começar a soar campainhas.  Criar minorias informadas parece ser um caminho difícil, mas possível; supostamente mais tarde ou mais cedo vão ter eco na maioria, como já aconteceu no passado.

É preciso também passar a mensagem de que entrar no jogo eleitoral é fazer o jogo das elites no poder porque como acrescenta R. Zibechi:

“A partir do momento em que as opiniões e vontades das pessoas são moldadas e manipuladas por gigantescas maquinarias que escapam de qualquer controle que não seja o das classes dominantes, entrar no jogo eleitoral não tem futuro.”

Conseguir traduzir em slogans (gritos de guerra) ideias complexas é uma estratégia possível e um desafio a que urge responder; a alternativa é baixar os braços e deixar correr.


terça-feira, 16 de maio de 2023

 

Para percebermos a atração das massas pelo fascismo

Wilhelm Reich em A psicologia de massas do fascismo (1933) defende a tese de que as massas - os seres humanos enquanto coletivo, mais ou menos indiferenciados - têm uma tendência acentuada para se colocarem sob a autoridade de alguém que percebem como mais poderoso e, em boa verdade, lidam mal com a autonomia. Kant, século XVIII, um dos filósofos do Iluminismo, também já o tinha percebido.

Autonomia implica liberdade, mas liberdade pressupõe correr riscos e o risco exige coragem para enfrentar a adversidade e aceitar a derrota pois nem tudo corre sempre bem; ora a coragem é uma virtude muito deficientemente distribuída e as pessoas preferem sentir que não são responsáveis pelo que corre mal; gostam de lançar a responsabilidade sobre o outro; gostam de se colocar sob a proteção de um outro numa atitude de subserviência que dá oportunidade a que se demitam do exercício da liberdade.

Segundo Reich é, pois, preciso atentar na natureza humana para compreender o porquê da atração das massas pelo fascismo, mesmo se, dadas as suas condições objetivas de vida, fosse espectável que assumissem uma atitude antifascista. Neste sentido Reich considera que para perceber os fenómenos históricos é preciso também atentar nos fatores subjetivos.

Para compreender o fascismo teremos então de problematizar a natureza humana e nesta de identificar os traços mais persistentes; de entre esses, Reich destacou a atração pela autoridade e a tendência para o misticismo. Aceitando-se esta perspetiva sobre a natureza humana, somos levados a rever, ou pelo menos a reinterpretar, a conceção hobbesiana do ‘homem lobo do homem’; de facto o homem, naturalmente predador, até pode atacar o outro, mas perante o mais forte, muitos  acobardam-se e tendem a colocar-se na sua dependência; parece que à liberdade preferem a segurança e ficam facilmente reféns do espírito de manada.

Se não percebermos isto não percebemos o fascismo nem a atração que exerce sobre as massas, e do mesmo modo não percebemos que não se vence o fascismo enquanto não se verificar uma evolução na própria espécie humana que durante milhares de anos adorou ídolos, acreditou em divindades e em milagres, e se submeteu ao mais forte, comportamentos que conferiam um sentimento de segurança a seres que se percebiam demasiado frágeis  para ousarem duvidar, para ousarem saber a verdade.  O “sapere aude” de Kant, o ‘atreve-te a conhecer’, o ‘ousa saber’, não foi nunca o lema das massas.

A explicação adiantada por Wilhelm Reich para se compreender o fascismo e o fascínio que desperta nas massas é muito interessante e tem poder persuasivo; parte da constatação de que o psiquismo humano não teve como não refletir a sociedade autoritária patriarcal na qual os seres humanos viveram e em boa medida continuam a viver e que explica fenómenos de todos conhecidos como o colonialismo, o racismo, a misoginia, numa palavra a exploração dos seres humanos por outros seres humanos, apoiada em  sistemas de ideias que a justificam. Estes fenómenos, segundo Reich, só foram possíveis porque o caráter do ser humano foi moldado para aceitar a dominação e para considerar natural a dicotomia dominante/dominado, explorador/explorado que, com nuances, tem vigorado através dos séculos e dos milénios.

De acordo com a sua perspetiva, durante milhares de anos os seres humanos foram submetidos à exploração, à subjugação racial, à discriminação de género através de condicionamentos sociais fortíssimos, com recurso a sistemas de recompensa/punição. Nesse contexto, a estrutura psíquica das massas que suportaram tudo isso tornou-as totalmente dependentes da autoridade, incapazes de liberdade e propensas ao misticismo, que aqui funcionava como fuga imaginária da situação de miséria, não apenas física, mas também mental, em que viviam.

Não é obrigatório pensar essa estrutura psíquica como algo inato, o condicionamento social e a doutrinação, nomeadamente através das religiões, são suficientes para explicar a sua emergência e continuidade; mas explicar não é mudar, e, enquanto nada se fizer, ela permanecerá porque a sua raiz é profunda e antiquíssima. Para a mudar será preciso reestruturá-la, dar-lhe uma nova configuração.

Assim, a reestruturação do psiquismo humano exige por um lado condições materiais, objetivas, que a tornem viável, e, por outro, implica que se estimule nos seres humanos o pensamento critico e criativo, para que se apercebam dos processos a que têm estado submetidos, e se consigam como que reprogramar; isto é, são requeridas também condições subjetivas que apontam para um novo sujeito, uma nova subjetividade.

Enquanto não ocorrer tal reestruturação do psiquismo humano, as massas continuarão permeáveis ao fascismo porque precisamente este apela a sentimentos muito profundos que ainda não foram extirpados, ainda são dominantes. Casos históricos recentes constituem-se como evidência empírica desta asserção. Temos o exemplo de Donald Trump nos Estados Unidos, que foi eleito presidente em 2016 e que contou com o apoio de boa parte do operariado - classe média baixa. Esse apoio verificou-se sobretudo nos estados do ‘cinturão da ferrugem’ (Rust Belt) que tinham sido alvo de desindustrialização e deslocalização de empresas a partir da década de oitenta do século XX. 

Também Bolsonaro, no Brasil, contou com o apoio de extratos da população – classe média e classe média baixa - que deveriam em princípio rejeitá-lo.

Estes eventos históricos recentes, com a ascensão da extrema direita de pendor fascista ao poder, reforçam a ideia de que para perceber o fenómeno do fascismo e do apoio das classes populares é decisivo não idealizar o ‘proletariado’, ’os trabalhadores’, e perceber quão problemático é contar com a sua capacidade revolucionária; reforçam ainda a ideia, adiantada por Reich, de que é preciso, como atrás referido, tomar em consideração não apenas os fatores objetivos – condições de vida das populações -  mas também os subjetivos – a sua subjetividade, a sua estrutura psíquica – a sua maneira de sentir e de pensar.  

É muito importante que a esquerda perceba isto, porque no século XX, e continuo a seguir o pensamento de W. R, tendeu a explicar o processo histórico através das lentes do materialismo histórico, ferramenta fundamental que Marx disponibilizara, mas tendeu a aplicar o materialismo histórico de forma mecanicista e não dialética e julgou que os fatores objetivos, condições materiais e económicas, davam conta, isto é, explicavam o que acontecia. Cometeram o erro de descurar os fatores subjetivos e falharam completamente a compreensão do fascismo pois não perceberam que a este corresponderam condições objetivas - condição económica dos trabalhadores - mas também a maneira de ver destes, as soluções que imaginam para os problemas, uma maneira mística e uma resposta falhada, como aconteceu com os eleitores de Trump que,  ao invés de culparem o capitalismo, culpavam os imigrantes que lhes roubavam trabalho e contribuíam para o declínio da América com a conivência, alegavam, da elite letrada e endinheirada.

O caráter das pessoas também conta e o caráter do operariado não deve ser mitificado, não são ‘o bom povo’, são um povo injustiçado que tem sido explorado e continua a sê-lo muitas vezes através precisamente da sua tendência para o misticismo, tipificado em slogans proféticos como o celebre “Façamos a América grande de novo” (Make America great again), de Trump, ou como “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos,” proclamado por Bolsonaro. Num caso e no outro, convocam-se entidades míticas - A América, O Brasil - e esquecem-se muito oportunamente os seres humanos concretos de carne e osso, nada propondo no sentido de pôr termo à exploração e à injustiça social.

Assim e resumindo, para compreender a adesão das massas ao fascismo, fenómeno intrigante e paradoxal, é preciso compreender a estrutura psíquica da classe média, em particular da classe média baixa- vítima e cúmplice - que a uma análise mais realista revela ser preconceituosa, facilmente manipulável, ávida de bodes expiatórios, com tendência para mitificar e para aceitar mistificações. Só depois de a compreender será possível começar a delinear estratégias de intervenção no sentido de a alterar e reconfigurar. Ninguém diz que a tarefa é fácil, mas se não tentarmos nunca vamos saber. Ousemos saber!

terça-feira, 9 de maio de 2023

 

Neoliberalismo, extrema direita e fascismo

Em How will capitalism end? (2016), Wolfgang Streeck explica que com o fim do ciclo de crescimento do pós-guerra - década de oitenta do século passado - as classes que dependiam do lucro perceberam a globalização e a deslocalização das empresas capitalistas para a periferia do sistema como um caminho possível para continuarem a crescer com base na exploração do trabalho, em melhores condições de rentabilidade.

Havia requisitos materiais para que esse novo caminho pudesse ser percorrido, graças às novas tecnologias da comunicação e da informação, e o que era possível tornou-se real. Só que no curto prazo, o poder do trabalho e dos trabalhadores dos países centrais, nomeadamente dos Estados Unidos, enfraqueceu e diminui e aí entrou o neoliberalismo com a sua ideologia do empreendedorismo, do salve-se quem puder, como novo modelo económico, e com a crítica ao estado gastador e concomitante defesa da diminuição dos impostos para os ricos, que o não investimento na segurança social tornava viável. 

O desemprego aumentava, mas exigia-se do Estado disciplina económica, o que significava diminuição do teto de gastos com a segurança e proteção dos mais vulneráveis o que gerou descontentamento popular que era preciso canalizar, não de modo a responsabilizar o sistema económico, mas antes o seu braço político, a democracia liberal; era como se a democracia deixasse de ser funcional para o sistema económico.

É nesse contexto que entra a extrema direita, os governos populistas e uma espécie de neofascismo, e é aqui que de momento nos encontramos, com experiências já no terreno tanto na União Europeia como nos Estados Unidos e na América do Sul. "Nada de novo na frente ocidental!"

sexta-feira, 28 de abril de 2023

 

O discurso populista - estratégia e objetivos

O discurso populista (da extrema direita) - vide em Portugal o caso do CHEGA - para ganhar a adesão popular explora os sentimentos de frustração das populações atribuindo as causas do mal-estar social que estas experimentam a fatores como (1) a corrupção, (2) a existência de elites políticas bem-pensantes, mas que se estão nas tintas para o povo e (3) a entrada de emigrantes no país.

O objetivo é conquistar apoio popular que lhe permita chegar ao poder através de eleições; a estratégia é explorar a afetividade e não a razoabilidade das pessoas, fornecendo respostas simples para os problemas, respostas intuitivas que se oferecem a um pensamento imediato que não as escrutina.   

As explicações fornecidas são simples, mesmo simplistas, porque ignoram a complexidade do problema; mas são reconfortantes porque na sua simplicidade o apresentam como facilmente resolúvel; são, todavia, falsas porque não identificam as suas verdadeiras causas, mas apenas circunstâncias coadjuvantes. Perceber isto é imprescindível para uma tomada de posição consciente, mas a maioria das pessoas milita na desinformação e vota com base nessa desinformação que interessa precisamente à elite dominante, representante de facto dos interesses do capital, mas que pode sempre alegar legitimidade porque afinal foi confirmada pelo voto popular.

De facto, embora as causas que se encontram na origem das frustrações sentidas pelas pessoas estejam ligadas à corrupção, às elites politicas dirigentes e a fenómenos migratórios,  decorrem acima de tudo do modo de funcionamento do sistema económico capitalista porque é este, reparemos, que gera a corrupção, isto é, que corrompe;  é este que manipula as elites politicas para estas defenderem os interesses dos capitalistas e é este que espolia povos de outras regiões dos seus recursos naturais, de tal modo que estes se veem impossibilitados de viver nas suas próprias terras e procuram a sobrevivência em outras paragens.

Com isto quero dizer que o capitalismo consegue a proeza de mistificar a real situação que determina a vida social, isto é, consegue escamotear os fatores económicos, que são primários, para colocar os fatores políticos, que são derivados, na ribalta, levando as pessoas a pensarem que a responsabilidade pelo que corre mal é do sistema político, é dos políticos e, em última análise, da própria democracia.

Esta mistificação torna difícil reconhecer verdades incontestáveis:

·        De facto, só existe corrupção política porque os capitalistas precisam que os políticos aprovem medidas que os favoreçam, isto é, existe corrupção porque há corruptores. Logo, para eliminar a corrupção há que eliminar os corruptores – é essa a chave da questão;

·        Por outro lado, a elite política, genericamente falando, tem interesses coincidentes com os dos capitalistas pois que a democracia liberal teve desde sempre um problema de representatividade; isto é, começou por representar só os proprietários e ainda hoje são fundamentalmente os filhos da burguesia que ascendem ao poder político, não os do povo, logo está muito longe de ser uma  democracia de facto: um governo do povo, para o povo e pelo povo. Logo para eliminar este problema haveria que encontrar mecanismos que garantissem que os representantes políticos representam o povo e não tao somente os capitalistas e os seus interesses - que é o que efetivamente acontece;

·        Quanto aos emigrantes, facilmente se percebe que invocá-los para explicar os desaires que os nacionais experimentam é mero recurso à estratégia do bode expiatório, para aliviar a pressão e permitir que o ódio se dirija para estes e não para os responsáveis pela situação.

Ora enquanto o capitalismo existir e os capitalistas forem os detentores do poder económico, o qual por sua vez lhes permite dominarem o aparelho cultural, nomeadamente os órgãos de informação, a mistificação vai continuar e muito provavelmente governos populistas vão dar uma ajuda preciosa à manutenção do sistema, recorrendo, se necessário, à força e a uma ordem política que supúnhamos já superada.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

 

Ordem política unipolar ou multipolar – em que ficamos?

A ordem política mundial unipolar, caraterizada pela hegemonia dos Estados Unidos, existe praticamente desde o termo da segunda guerra mundial que devastou a Europa e lhe reservou o palco e o protagonismo.

Ora, no século XXI, mais precisamente no início da terceira década, China e Rússia pretendem eliminar essa ordem e substitui-la por uma de natureza multipolar. Nada de mais legítimo, parece! Quem não concordar deve apresentar argumentos, pois cabe-lhe o ónus da prova.

O ‘império’ norte-americano reage como seria de esperar e, através dos seus braços tentaculares, tem procurado minar o acerto entre a China e a Rússia; ainda recentemente, às vésperas da visita do líder chinês à Rússia, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandato de prisão contra Putin sob a acusação de que este seria um criminoso de guerra; esquecia piedosamente a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, à revelia do direito internacional, bem como outras inúmeras tropelias. Nitidamente, dois pesos e duas medidas: se é russo é criminoso, se é norte americano é herói nacional. 

Por outro lado, é hoje bastante óbvio que a invasão da Ucrânia pela Rússia foi provocada pela ameaça que os Estados Unidos, via OTAN, representavam para a segurança e integridade territorial da Rússia e que esta guerra se constituiu como uma guerra por procuração visando enfraquecer a Rússia para de seguida transformar a China num alvo legítimo de ataque, obrigando esta a reagir em relaçao a Taiwan, que os Estados Unidos tentam ‘anexar’ informalmente. Como se vê a estratégia é a mesma e tem o mesmo objetivo: criar condições que levaram primeiro a Rússia e depois poderão levar a China a tomar a iniciativa de atacar para puderem dizer, à boca cheia, que há um agressor e um agredido e que o Ocidente, por motivo dos seus elevados padrões éticos, é obrigado a intervir a favor do agredido. Hipocrisia maior é difícil de imaginar, mas bem cozinhada pelos media é engolida pelas populações que não percebem os contornos capitalistas destas guerras e que alinham sem questionar, não entendendo que são instrumentalizadas para que a acumulação capitalista e o enriquecimento dos seus promotores possa ocorrer, enquanto o cidadão comum é convidado a fazer sacrifícios e a empobrecer a ritmo acelerado. Depois, se der, “os donos disto tudo” distribuem algumas migalhas do banquete que estão a preparar.  

No meio há um pormenor que pareceu escapar ao império; será que não percebeu que a aliança entre Rússia e China seria inevitável, que estava a lançar uns nos braços dos outros, como Kissinger, com a sua esperteza de rato, rapidamente percebeu? Será que os Estados Unidos não entenderam que estavam a ir além da conta? Ou será que num sistema capitalista este tipo de fenómeno é inevitável, para se processar a acumulação de capital nas mãos de uns em detrimento de outros? Uma espécie de jogo de soma zero, tipo: +1 -1= 0; ou seja, o que eu ganho o outro perde.

Em sequência, a China tem vindo a posicionar-se no sentido de ser um elemento importante na mediação de conflitos entre outros países, vide o caso mais flagrante do acordo entre Irão e Arábia Saudita que intermediou. Este apaziguamento é um sério revés para os Estados Unidos que sabotaram o gasoduto Nord stream 2 que abastecia 40% da união europeia.

Resumindo, pode dizer-se que, enquanto os Estados Unidos parecem privilegiar a competição, a China procura promover a cooperação ao invés do conflito. É essa a imagem que passa.

Todavia, para fragilizar qualquer eventual apoio às pretensões de se pôr um termo a ordem mundial unipolar, alega-se que China, Rússia, Irão, e Arábia Saudita são países autoritários e tal é verdadeiro; mas que dizer dos países que, como os E. U, se apresentam como não autoritários? O facto é que, enquanto os primeiros se centram na cooperação, este último estimula a guerra e a competição com o objetivo de mandar nos outros, apresentando-se internamente democrático, mas comportando-se externamente de forma profundamente antidemocrática.

Ora para compreender o processo histórico é preciso levar em conta os circunstancialismos históricos: é facto que a China tem um regime autoritário, mas também é facto que promove um entendimento entre países não na base da dominação, mas na base da cooperação. Assim sendo, neste contexto histórico quem devemos apoiar?  Alem disso, o sucesso da China é para já o sucesso de um mundo multipolar e perguntemo-nos: o que é mais conveniente para as nações e para a sua autonomia e não opressão? É um sistema mundial unipolar ou o multipolarismo? Este implica cooperação, aquele estimula naturalmente a competição porque faz parte da lógica do sistema e a lógica é inelutável.

Por isso, falemos um pouco de lógica. A lógica a que se costuma recorrer é a lógica binária, de raiz aristotélica. Só admite dois polos o branco e o preto, o verdadeiro e o falso; é a lógica do princípio de identidade, do “ou é ou não é”, é uma lógica não dialética, pensada para enquadrar uma realidade estática. Mas a realidade é dinâmica, e essa lógica por esse motivo não permite compreender que estados autoritários em política interna possam ser não autoritários em política externa e vice-versa, não percebe as nuances. 

Também não permite compreender que os estados autoritários são estados que frequentemente se formaram libertando-se de um estado hegemónico (vide o exemplo flagrante de Cuba) e que até por uma questão de sobrevivência face a eventuais ataques do estado hegemónico se viram obrigados a organizar-se de forma autoritária, de modo a criar uma barreira impenetrável. Por exemplo, é bastante óbvio que a China, se não contasse com um aparelho estatal forte e autoritário, já tinha sido desmembrada pelo estado hegemónico (é bom não esquecer que a China embora nunca tenha sido uma colonia do Ocidente - colonialismo de assentamento- mesmo assim este, através do império britânico, procurou impor-lhe os seus interesses específicos e oprimi-la.

 Isto deve fazer-nos refletir sobre as causas e os antecedentes dos regimes ditos autoritários, pelo menos de alguns deles e deve-nos levar a abandonar o senso comum simplista que nos empurra para respostas fáceis, mas enganosas e que é enquadrado pela lógica binária que acima referimos. Deve obrigar-nos a pensar dialeticamente.

sábado, 1 de abril de 2023

 


A existência de ricos e de pobres - mérito de uns, demérito de outros!  

Para abordar o tema em epígrafe, escolhi  dar-vos a conhecer um excerto de Marx, que complemento com a minha interpretação e  apreciação critica .

“Em tempos muito remotos, havia, por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa, e, por outro, vagabundos dissipando tudo o que tinham e mais ainda. A legenda do pecado original teológico conta-nos, contudo, como o homem foi condenado a comer seu pão com o suor de seu rosto; a história do pecado original econômico, no entanto revela-nos por que há gente que não tem necessidade disso. Tanto faz. Assim se explica que os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada tinham para vender senão sua própria pele. E desse pecado original data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo o seu trabalho, nada possui para vender senão a si mesma, e a riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de trabalhar.”

Marx. O Capital, cap. XXIV p. 339.

A existência de ricos e de pobres não é um fenómeno dos nossos dias; tanto quanto podemos remontar no tempo sempre existiu. Tal acontece porque as pessoas são diferentes, algumas têm certas qualidades: inteligência, capacidade de trabalho e de previsibilidade; outras, pelos vistos a vasta maioria, são:  pouco inteligentes, preguiçosas e, não olhando ao futuro, gastam tudo o que no momento têm. Dado este contexto em que a vida da humanidade decorreu, esta situação social - ricos de um lado, pobres do outro - é justa porque é baseada no mérito de uns e no demérito de outros.

Utilizando uma analogia com  o pecado original para que a Bíblia remete, pode dizer-se que o pecado económico original consistiu em que a maioria não trabalhou o suficiente, preguiçou bastante, gastou tudo e por isso foi condenada a trabalhar perpetuamente; os outros – uma minoria - escaparam ao castigo e podem viver sem trabalhar ou pelo menos ocupando o seu tempo de uma maneira que no mínimo é prazerosa para eles, já que tem antecipadamente assegurada a sua subsistência.

Este pecado económico original permite compreender a acumulação de riqueza e de recursos nas mãos de apenas alguns e o facto de os outros terem de se lhes sujeitar e de se vender (vender a sua força de trabalho) para subsistirem.

Em poucas, mas brilhantes palavras, Marx, recorrendo à ironia como figura de estilo, faz nos perceber como através dos tempos se tem perpetuado o sistema social de classes,  justificado de uma maneira inteligível para a maioria das pessoas que aceita essa justificação como muito plausível porque parece corresponder ao que é justo - à ordem natural das coisas.

Todavia, se refletirmos um pouco, é fácil reconhecer que não há mérito nenhum em ser mais inteligente e mais diligente; de facto, são qualidades positivas, é certo, mas ninguém escolheu nascer com elas dotado nem escolheu nascer numa família e num meio social que cria um ambiente favorável ao seu desenvolvimento.

O mérito e o demérito não são critério de justiça, nada há de justo ou injusto neles. A justiça tem de ser balizada por outros critérios e estes passam por criar condições de subsistência para todos e por assegurar, também para todos, condições que permitam que não sejam oprimidos por outros e possam desenvolver o seu potencial – isto é, aquilo que podem vir a ser e a realizar de positivo nas suas vidas.

  O que é a democracia liberal? – uma resposta breve Se quiséssemos sintetizar numa expressão breve o que é a democracia liberal poderíamo...